quinta-feira, 23 de julho de 2009

terça-feira, 21 de julho de 2009

Diário de Viagem: Bonito

No começo deste mês, participei do XXIII Congresso Brasileiro de Biblioteconomia, Documentação e Ciência da Informação (CBBD) em Bonito-MS. Foi meu primeiro congresso profissional desde que saí da faculdade - até então, eu só tinha participado de eventos específicos sobre informação em saúde promovidos pelo Ministério da Saúde ou pela Bireme. E, claro, eu não podia perder a oportunidade de fazer um pouco de turismo também :-).



O envento aconteceu no Centro de Convenções de Bonito, o da foto aí em cima. A melhor parte, para mim, foi (re)encontrar colegas que, como eu, faziam a transição dos encontros de estudantes (nossos queridos ENEBD's) para eventos mais "adultos". Por outro lado, senti falta de ter um trabalho pra apresentar - até tentei, mas faltou tempo pra pensar no começo deste ano. E o fato de ser a única responsável pelo andamento da biblioteca onde trabalho me atrapalhou na hora de escolher palestras e trabalhos para assistir. Quem cuida de tudo acaba não se especializando em nada... Mas, no geral, o Congresso teve apresentações interessantes, especialmente na área de acessibilidade. Fiquei especialmente impressionada com as iniciativas da Universidade Federal de Sergipe e da Biblioteca Pública do Espírito Santo.



Difícil falar de Bonito sem escapar dos trocadilhos infames: é um lugar que está à altura do nome. Os organizadores do CBBD levaram isso em conta e deixaram as manhãs relativamente livres: nada de apresentações de trabalho nem de palestras gerais, apenas alguns Workshops para públicos específicos. Assim, todo mundo teve tempo de aproveitar alguns dos passeios. Há opções para a maioria dos bolsos, os guias e motoristas são bem-preparados (e não tem aquela "esmolinha" no final, os preços são todos tabelados), a infra-estrutura vai de boa a ótima (um detalhe que me impressionou foram os banheiros, sempre limpos e bem-conservados - até nas atrações da Prefeitura). Vale a pena visitar Bonito!

No Balneário Municipal, minha primeira parada, nadei com os piraputangas (peixes-símbolo de Bonito), vi araras e outros bichos, tomei suco de guavira (é doce, mas não enjoativa). É um lugar bacana, mas não tem nada de extraordinário.

Meu segundo passeio foi descer de bote o Rio Formoso, um dos principais da região (outros incluem o Sucuri, o Rio da Prata, o Mimoso...). Descer as cascatinhas deu um frio na barriga, mas o que me molhou mesmo foram as guerrinhas de água entre os botes. Os remadores são os piores, mas teve um adolescente num outro bote que também fez um estrago. (sinal de velhice: reclamar de adolescentes...)

Terminado o CBBD, sobrou tempo para passeios mais longos. Mas a chuva que caiu a noite toda no último dia do Congresso foi um banho de água fria... Fiquei com medo de ter gasto dinheiro à toa quando troquei a passagem. Eu já tinha agendado a flutuação no Rio da Prata para o dia seguinte, que amanheceu nublado... O passeio estava marcado para as nove e meia, mas atrasou por falta de guia - e o dia continuava nublado. Mas a chuva parou, encontraram uma guia, e lá fomos nós (eu, dois casais, duas amigas viajando juntas e mais duas mulheres viajando sozinhas).

Flutuações (descer um rio usando máscara, snorkel e roupa de neoprene, para ver os peixes) são um dos passeios indispensáveis de Bonito. Escolhi a do Recanto Ecológico do Rio da Prata por já ter recebido o prêmio "Escolha do Leitor" do Guia 4 Rodas. E, de fato, eles não estavam errados... Para chegar à nascente, fizemos uma caminhada de uns 40 minutos por uma trilha limpa e bem-sinalizada (árvores típicas são assinaladas e há plaquinhas informativas sobre animais que circulam por ali). Mesmo com a chuva interminável do dia anterior e com o tempo nublado, a água da nascente continuou cristalina. Em 1h30 de flutuação, vi piraputangas, pacus, dourados (um deles passou bem na minha frente, lindo!), passei bem no meio de um cardume... Alguns pontos são bem rasos, o que me deixou inquieta: a sensação era de que eu ia deitar no fundo do rio. Um ponto tem uma corredeira - o grupo sai do rio neste trecho, mas volta logo antes de uma curva cheia de pedras que é a mais emocionante de se passar.

Não flutuamos no Rio da Prata propriamente dito porque, ao contrário da nascente, as águas estavam turvas. Mas a maior surpresa veio quando estávamos no transporte de volta para o receptivo, onde o almoço nos esperava... A guia estava conversando tranquilamente quando sua expressão mudou: lá longe, uma onça parda corria de volta pra mata! Ela era enorme, linda, e muito rápida. Se eu tivesse piscado, não teria visto (e, de fato, duas pessoas não viram...) A cereja no bolo foi saber que nossa guia esperou 15 anos por aquele momento. Claro que ficamos nos gabando do nosso pra todo mundo!

No dia seguinte, fomos (o grupo era praticamente o mesmo!) à Estância Mimosa, fazenda que se destaca pelas cachoeiras e pelo almoço farto e delicioso. Depois de comer e de passar um tempo à beira de um lago na companhia dos gansos, de uma garça e de um jacaré-do-papo-amarelo (mais assustador que a onça...), descemos a trilha para conhecer as cachoeiras. Como o lugar já tinha sido explorado por madeireiros, a mata ainda está em recuperação. Mesmo assim, há bastante coisa pra se ver, e as cachoeiras são lindas. Como o dia estava frio, só me animei a mergulhar na última que visitamos, a do Sinhozinho. Uma pedra estrategicamente localizada, bem abaixo da queda, é o ponto ideal para receber uma bela massagem nas costas... Voltamos pouco antes de escurecer, e ainda fizemos um lanche antes de ir. O guia foi no carro com a gente até a cidade, e foi aquela festa: piadas, histórias e até relatos sobre assombrações que vagam por Bonito guardando tesouros da época da Guerra do Paraguai - segundo a lenda, luzes e sonhos indicam os locais onde estão enterrados os tais tesouros para alguns poucos escolhidos.

Nesta noite, caminhando até a cidade sozinha para a janta, topei com mais uma surpresa: uma festa julina no meio da rua, promovida por uma escola da cidade. Me diverti com as quadrilhas (especialmente com as "damas" que eram cavalheiros, e vice-versa), comi pastel, tomei chocolate-quente... Voltei pro albergue pronta pra cair na cama.

Na manhã seguinte, finalmente visitei a Gruta do Lago Azul, cartão-postal principal de Bonito. A trilha é bem escorregadia, mas nada que impeça crianças e idosos de curtir o passeio. Os guias dão todos os detalhes: o mergulho é proibido para preservar uma espécie única de crustáceo que vive no lago; a melhor época para visitar é em dezembro-janeiro; o ideal é tirar fotos sem flash; no fundo do Lago foram encontradas ossadas de uma preguiça-gigante e de um tigre-de-dentes-de-sabre... Mas o que importa é que a Gruta é linda. Perto da Gruta do Lago Azul, mas menos disputadas, as Grutas de São Miguel também valem a visita.

À tarde, fiz arvorismo no Hotel Cabanas - pra chegar lá, andei de moto pela primeira vez. Encontrei uma outra bibliotecária por lá, e fomos muito zoadas pelos guias por sermos "cariocax" :-) A recepcionista do albergue tinha dito que o passeio do Hotel era o mais leve dos três arvorismos disponíveis, mas foi emoção suficiente para mim. A tirolesa é a melhor parte, e a vista é maravilhosa! Ainda tivemos um presente: dois tucanos passaram voando antes de irmos embora...

No último dia, optei por um passeio a cavalo no Parque Ecológico do Rio Formoso. Foi muito melhor do que eu esperava - o grupo era divertido, o guia era uma figura (ele ainda nos serviu tereré, um espécie de chimarrão gelado típico do MS), o cavalo era mansinho e o lugar, maravilhoso.

Bonito é, sem dúvida, um destino ecológico, não só pelas atrações. A cidade faz coleta seletiva, há tratamento de esgoto, as ruas são limpas e bem-conservadas. Dá pra ver que o dinheiro do turismo (e da agropecuária, que ainda é a principal fonte de renda do município) está sendo bem aplicado.

Para comer, a opção básica é peixe. A carne de jacaré é super-popular, aparece até em sanduíches e pastéis. Provei um prato com jacaré à dorê, uma delícia! Experimentei também picolés de frutas típicas (não lembro os nomes, mas uma era azedinha como cajá, e a outra, doce como leite condensado), geléia de azeitona, e um chocolate-quente com licor de guavira - nada muito forte, só o suficiente para espantar um pouco o frio.

Durante o Congresso, fiquei hospedada numa pousada no centro (Paraíso das Águas), o que é uma mão-na-roda - você não precisa de transporte nem caminhar muito para encontrar um lugar pra comer ou fazer compras. Por outro lado, a pousada fica bem em frente ao Taboa, único bar da cidade com música ao vivo depois das 23h. Não chegou a prejudicar meu sono, mas também não ajudou...

Depois, me transferi para o Albergue de Bonito. Estava com o pé atrás por causa das milhares de informações e recomendações que eles despejam na página - parecia mais um acampamento de igreja do que um albergue... Mas o lugar é agradável e bem cuidado, e encontrei pessoas bacanas do Brasil e do mundo - até da República Tcheca (e viva as aulinhas de inglês)!

Enfim, já escrevi à beça. Acho que esta foi a melhor viagem que fiz até hoje - com certeza foi a que mais proporcionou experiências novas! Mais fotos no Picasa:

sábado, 18 de julho de 2009

Na Rede (2) - Cara, cadê meu livro??

Deu no New York Times: alguns usuários do Kindle (o leitor de e-books da Amazon) acordaram dia desses sem alguns dos livros que compraram e com um crédito correspondente ao valor gasto nas suas contas. A explicação só veio depois: aparentemente, as edições adquiridas foram vendidas irregularmente. A notícia foi comentada pelo colunista David Pogue, pelos usuários do Kindle (claro!), e em sites como o Current.com, onde topei com a notícia.

Não vou entrar na discussão "papel versus e-books". O que é estranho nesta história é que a gente costuma ver os e-books como a evolução do livro tradicional: são mais ecológicos (não derrubam árvores), mais práticos (adeus, estantes - e armários, e gavetas - abarrotadas!), o futuro. Até aí, tudo bem. Por outro lado, você não pode emprestá-los, não pode revendê-los (adeus, sebos?), não pode fazer Bookcrossing com eles. E, pra piorar, descobrimos da pior maneira que a livraria ou editora pode simplesmente tomar de volta o que já foi comprado!

Vocês devem se lembrar do processo que o Roberto Carlos ganhou, impedindo que uma biografia sua continuasse sendo comercializada. Imaginem se, em vez de se limitar a recolher os exemplares não vendidos, a Saraiva (ou a Cultura, ou o Submarino, enfim, sua livraria de escolha) mandasse alguém invadir a sua casa quando você não estivesse olhando, levasse o livro da sua estante e deixasse um cheque na mesa da sala antes de sair? Dizer que as cópias vendidas aos usuários do Kindle não eram legais é desculpa esfarrapada. A negociação entre os usuários e a Amazon foi legítima, ninguém estava pirateando nada - até porque, se pirateassem, não teriam direito a reembolso, né? Quem errou foi a Amazon, que vendeu mercadoria sem ter certeza de sua origem. Ou não?

A ironia das ironias? Os livros "retirados" foram 1984 e A Revolução dos Bichos (Animal Farm), de George Orwell. Big Brother IS watching you - e ele vai levar seus livros!

***

Para animar, tem filminho novo da Pixar na área: Partly Cloudy (Parcialmente Nublado, na minha tradução) brinca com a velha lenda sobre cegonhas que entregam bebês. No caso, as cegonhas "trabalham" para nuvens que moldam e dão vida a filhotes de todas as espécies... É fofo :-) A estreia oficial será junto com o novo longa da produtora, Up.

sábado, 20 de junho de 2009

Questão de Princípio

Participei recentemente de um mini-curso sobre os Princípios Batistas, ministrado pelo prof. Osvaldo Luiz Ribeiro e promovido pelo Centro Acadêmico Dr. Shepard do Seminário Teológico Batista do Sul do Brasil. Como tivemos apenas quatro encontros, não trabalhamos os Princípios exaustivamente. O prof. Osvaldo preferiu realçar alguns pontos que revelam a influência do liberalismo inglês do século XVII sobre aqueles primeiros batistas. Um dos trechos trabalhados discute o governo da igreja e, em certo ponto, afirma: "Nem a maioria, nem a minoria, tampouco a unanimidade, reflete necessariamente a vontade divina".

Se resolvermos seguir este princípio, temos que admitir que nenhum grupo - e nenhum indivíduo - tem respaldo quando afirma conhecer a vontade de Deus. A partir desta constatação, o professor propôs um pequeno exercício de reflexão: "E agora?" Dois alunos, eu inclusive, aceitamos o desafio. Os textos estão no blog Peroratio, junto com algumas considerações do Prof. Osvaldo. Eis o meu:

Se a vontade de Deus não é necessariamente expressa pela opinião da maioria, nem pela da minoria, e nem mesmo pela opinião de todos, estou isenta de buscar "vontades" específicas de Deus para a minha vida. Minhas decisões são minhas, com todo o bônus e o ônus que isso representa. Sou livre para decidir segundo o meu juízo, para voltar atrás quando errar (sem tentar culpar a Deus pelos meus erros), para assumir as consequências de meus atos. Ninguém decidirá por mim, e eu não decidirei por ninguém. Mas nem por isso estou totalmente sozinha: em vez de mentores que me indiquem O caminho, busco companheiros que me ajudem a fazer meu próprio caminho.

Saber que não há como ter certeza da vontade de Deus é assustador, especialmente para quem foi ensinado a buscar essa vontade e a segui-la. Por outro lado, e é esta a perspectiva que mais me atrai, é também libertador. Deus deixa de ser a Esfinge bloqueando o caminho, à espera que eu dê a resposta certa ao enigma ("Decifra-me ou devoro-te!"). Não há esfinge, não há um só caminho. Ou, como diz Antonio Machado, "Não há caminho - o caminho se faz andando". E não há uma só resposta ao enigma. Aliás, não deixa de ser curioso lembrar que a resposta ao enigma da esfinge é "o ser humano"...

Falar em uma Resposta me faz lembrar do Guia do Mochileiro das Galáxias. Segundo a série (que já foi programa de rádio, livro, seriado de tv, filme e até toalha), 42 é A Resposta para a Vida, o Universo e Tudo o Mais. O que ninguém sabe é qual é a pergunta... E, se a gente pensar bem, o que não falta por aí é resposta: amor, dinheiro, caridade, trabalho, religião, sexo, prozac, comunismo, anarquismo, capitalismo - tudo pode servir pra nos levar a auto-realização, à felicidade, à justiça social. Só falta decidir se o que a gente quer é auto-realização, felicidade, justiça social ou não sei o que mais - enfim, só falta saber qual é a pergunta. Ou, antes: falta encontrar uma resposta para cada pergunta que a vida me coloca. Cada situação é um desafio e uma oportunidade para escolher: com que roupa eu vou? Com quem eu vou? Pra onde eu vou? E como eu faço pra chegar lá?

Há desafios que são banais, como o de escolher se vou de ônibus ou metrô. Outros parecem mais assustadores do que são na verdade, como o Cavaleiro Negro de Em Busca do Cálice Sagrado - e, como o coelhinho do mesmo filme, alguns são bem mais perigosos do que parecem (Monty Python, Douglas Adams... O que seria de mim sem os humoristas ingleses??). Diante de cada desafio, grande ou pequeno, estamos sozinhos: a decisão final será sempre nossa.

Ser livre é ser só. Mas essa solidão não me satisfaz. É verdade que ninguém pode tomar minhas decisões por mim, e eu também me recuso a decidir por outros. Mas prefiro a opção do Drummond (ufa, um brasileiro!): "Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas". Quando li meu texto na última aula do curso, o Osvaldo comentou que dois perdidos não fazem um achado. Concordo. Mas vejo isso como uma advertência contra a ilusão de encontrar, em/com alguém ou com/num grupo, a resposta para a vida (e o universo, e tudo o mais). Abro mão dessa ilusão, mas não abro mão de compartilhar minha vida com outras pessoas. Se dois dormirem juntos, eles se esquentarão; mas como é que um só vai se esquentar? Ah, isso é Eclesiastes 4.11, só pra jogar um pouquinho de Bíblia também.

Encontrei por acaso esta tirinha, que tem a ver com tudo isso:

> Oi, eu estava me perguntando se você tinha planos pra -- Carambola, o que aconteceu com o seu apartamento?
> Eu enchi de bolinhas de plástico.
> Eu... O quê? Por quê?
> Porque nós somos adultos agora, e é a nossa vez de decidir o que isso significa.

É isso aí...

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Ouvindo: Jens Lekman - The Opposite of Hallelujah
via FoxyTunes

segunda-feira, 9 de março de 2009

Diário de Viagem: Buenos Aires

Hola!



Aproveitei o Carnaval para fazer minha primeira viagem ao exterior: Buenos Aires, Argentina. Fui sozinha: comprei a passagem um mês antes (em cima da hora: os voos de sabádo e domingo já estavam lotados) e reservei um albergue indicado pelo Lonely Planet: Hostel Suites Palermo. Fica num bairro afastado do centro, o que dificultou algumas coisas, mas gostei do clima tranquilo do lugar. Os outros albergues que consultei eram mais festeiros, um deles até avisava: "Se você gosta de dormir cedo, NÃO escolha este hostel". Segui o conselho :-)

Tudo certo pra viagem, bateu o frio na barriga: que é que eu vou fazer sozinha num país estranho (uma nação inimiga, pelo menos no esporte) e sem falar a língua do lugar (entendo o espanhol, especialmente lendo, mas não falo nada além daquele portunhol bem furreca)? Relaxei um pouco no avião, até porque adoro voar, mas foi só sair da checagem da imigração no aeroporto pra voltar o medo.

Caí num daqueles golpes de taxistas logo de cara: o motorista me cobrou 178 pesos por uma viagem que, na volta, saiu por 90 - sim, quase o dobro! Boa parte dos meus pesos foi embora nessa transação... Mas me informei na recepção do albergue e descobri que poderia trocar meus dólares (na hora de fazer o câmbio, troquei uma parte em pesos pro táxi e o resto em dólares) num lugar perto.

Deixei a mala e a mochila no quarto (me impressionei com a bagunça que as outras meninas fizeram) e saí para comer alguma coisa. Andei algumas quadras até o café Tonno, onde comi uma pizza - veio meio queimada, mas os pepperones eram maravilhosos - e observei os locais. Um grupo de adolescentes deu lugar a um casal com três filhos, a primeira prova da alta taxa de natalidade argentina (segundo o Lonely Planet, a mais alta da América Latina). Tem criança para todos os lados em BA! A determinada altura os funcionários mudaram o canal da TV para assistir a Hombre al Agua, uma espécie de gincana só com provas aquáticas (lembrei das Olimpíadas do Faustão). Tentei assistir até o final, mas era looongoooo e o sono venceu. Na hora de pagar, segundo susto: o cartão de crédito não liberou a compra. Fiquei apavorada na hora. Agora, trocar os dólares parecia questão de vida ou morte...

Segundo dia: liguei o notebook antes de sair do albergue e, por via das dúvidas, paguei a fatura do cartão de crédito e chequei a liberação para uso no exterior do cartão. Depois fui procurar a tal casa de câmbio. Tomei um novo susto porque não a encontrei no lugar que me indicaram, mas segui em frente: estava na Av. Santa Fé, uma das principais de Buenos Aires, e achei que deveria ter algum lugar onde eu pudesse trocar o dinheiro por ali. Finalmente encontrei: problema n. 1 resolvido!

Almocei num restaurante simpático. Confesso que me decepcionei um pouco: todo mundo fala tanto das carnes argentinas que eu, carnívora assumida, estava com água na boca para provar. Só que, aparentemente, tempero não é o forte dos hermanos... Só comi carne sem sal lá, uma pena. Mas as papas fritas estavam deliciosas!

Passei o resto da tarde explorando Palermo, um bairro de classe-média alta, arborizado e com uma vida noturna agitada. Minha primeira parada foi o Zoo, onde aproveitei para testar o cartão de crédito. Compra autorizada! Finalmente tranquila, curti bastante o passeio: show de lobos marinhos, ursos, felinos, girafas, lhamas, elefantes... E muitos, muitos turistas, especialmente brasileiros: na fila, alimentando os animais (o próprio zoológico vende um preparado especial para isso), tirando fotos, passeando.

Conferi no guia da Folha de São Paulo (se você pretende ir a BA, recomendo muito esse guia: os mapas são valiosos e o tamanho é ideal pra levar na bolsa) o endereço da Persicco, uma das mais badaladas sorveterias portenhas. Tomei um cucurucho (casquinha) de dulce de leche casero. A primeira surpresa: a porção é extremamente generosa, praticamente o dobro do sorvete do lado de fora - enche os olhos e a boca, mas não é muito prático na hora de tomar. A segunda: o tal sorvete de doce de leite não é enjoativo! E a terceira: a casquinha tinha umas três ou quatro camadas, uma delícia. Nota 10 para o helado.

Finalizei a tarde numa das muitas praças de Buenos Aires, vendo casais, famílias e grupos de amigos jogados na grama, um carinha treinando malabares, crianças bricando (dois meninos na minha frente faziam mountain bike num buraco de uma quadra), cachorros (outra paixão portenha - vi vários "andadores" de cachorro segurando vários pelas correntes), gente jogando futebol ou bebendo mate, uma delícia. O sol só se põe pra lá das oito horas, e ao que parece eles aproveitam cada minuto antes que isso aconteça. Voltei para o albergue, não sem antes traçar uma omelete num restaurante.

O terceiro dia começou bem cedo, com um city tour. Saímos do parque onde se encontra a bela Floralis Generica e percorremos Palermo e os bairros mais centrais até a Plaza de Mayo, ponto de protesto famoso e onde fica a Casa Rosada. Depois, fomos a La Boca, lar da Bombonera (estádio do Boca Juniors, ex-time de Maradona - até estátua do Diego tem lá) e de Caminito, ruazinha famosa pelas fachadas coloridas e os artistas de rua - muito careiros, por sinal.

O tour me deixou em Puerto Madero, talvez o lugar mais charmoso que vi em BA (o páreo é difícil, Palermo e a Recoleta são maravilhosos). Caminhei até não poder mais pelo calçadão à beira do rio, almocei no restaurante Siga La Vaca - parilla estilo "coma-o-quanto-puder" - em uma ponta e fui até a Freddo, na outra ponta, (outra sorveteria chique) tomar um helado de framboesa. No meio do caminho, visitei a Fragata-Escola Sarmiento e morri de inveja dos estudantes da Universidade Católica de BA, que estudam num lugar daqueles. Será que tem Teologia lá? Ah, sim, Puerto Madero também estava lotado de brasileiros, no Siga La Vaca uma família estava especialmente barulhenta :-)

Caminhei até o centro e fiz um pit-stop no shopping Galerias Pacífico, que tem afrescos lindos no teto. Dali segui pela Calle Florida (espécie de Uruguaiana portenha) até o metrô, ou Subte - de subterrâneo, reparou? - e voltei para "casa". Naquela noite saí para o Tango Experience, evento promovido pela rede Hostel Suites. A aventura começa no Hostel Suites Florida (um dos albergues mais bacanas que já vi, e bem central - fica na Calle Florida) com uma taça de vinho e, pelo menos naquela ocasião, alguma música (tocada num violino por um barbudo gordinho de bermuda). Não me aventurei a tomar uma taça inteira, mas provei uns golinhos.

Do ponto de encontro saímos, apertados numa van, para uma aula de tango - não aquele de filme, com rosas e vestidos decotados, mas o tango das milongas, que gente de verdade dança. A professora era ótima, e o grupo estava bem descontraído (culpa do vinho, talvez?), o que deixou tudo mais divertido. De volta para a van, fomos para uma pizzaria, e aí o papo rolou solto. Brasileiros, claro: duas cariocas - eu e mais uma, chamada Janaína (a rainha da água doce encontra a rainha do mar) - e dois gaúchos, um francês que fala português, um italiano, um holandês, uma inglesa, um irlandês, um chileno... Uma verdadeira babel :-)

Pra fechar a noite, visitamos uma milonga. A ideia era testar os conhecimentos, mas poucos se aventuraram na pista de dança - eu entre eles, duas vezes! Pena que não tenho as fotos para comprovar, mas tive testemunhas. Dancei mal, lógico, mas quem liga? E pelo menos não pisei no pé dos meus pares, já considero uma vitória :-)

Quinta-feira, último dia inteiro em BA. Caminhei quadras e mais quadras na Av. Santa Fé, de Palermo até a Recoleta, para conhecer El Ateneo Grand Splendid, uma das livrarias mais bonitas do mundo. O prédio era um cine-teatro, e os novos donos fizeram intervenções mínimas para instalar a livraria, mantendo os balcões e o espaço do palco. Foi ali que almocei um belo (e insosso, nada que um salzinho não ajudasse) bife de chorizo.

Dali, caminhei mais um tanto até a Recoleta, onde visitei a Igreja de N.S. do Pilar (que tem um pequeno museu), o famoso Cemitério onde está enterrada Evita, e o Museu de Belas-Artes, com uma coleção invejável. Numa praça, um grupo ensaiava técnicas de circo - malabares, corda bamba, etc. Jantei por ali, e, no caminho até o subte, vi um legítimo panelaço contra a troca de mão de uma avenida.

Ufa! A sexta foi só para arrumar a mala, comprar uma lata de alfajor (devorados pela minha irmã em menos de uma semana) e ir ao aeroporto, lotado - tinha uma fila gigantesca pra passar pelos detectores de metal! E você ainda tem que pagar uma taxa pelo uso do espaço... De volta para casa! Agora, é planejar a próxima viagem...

Mais fotos e histórias no Flickr.

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