Se a chuva der uma trégua, vamos receber 2010 à luz de uma "lua azul" - nome que se dá à segunda lua cheia de um mesmo mês. A próxima vez que isto vai acontecer será em agosto de 2012. Inspirada nesse fenômeno, deixo como lembrança de final de ano este clipe da música Blue Moon com o grupo The Marcels. Aproveitem o ano novo!
quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
Lua Azul, Ano Novo
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
O fator fé
O Raul, meu colega de Seminário (atualmente em "licença-paternidade"), deixou o seguinte comentário no meu post sobre o livro Missão Transformadora:
"quanto a sua última resposta de incerteza gostaria de lhe fazer uma pergunta: e o fator FÉ?"
A "última resposta de incerteza", creio, seria este trecho:
Para mim, porém, o apelo às "Escrituras" ou à tradição fala cada vez menos. Não posso mais defender a superioridade do cristianismo sobre outras religiões (ou sobre a "não religião", por falar nisso). E, no momento, não me sinto capaz de aderir incondicionalmente a qualquer doutrina cristã...
Caro Raul, o "fator fé" é justamente parte do problema. A fé cristã não é única e imutável, existem diversas fés possíveis, e cada uma delas encontra apoio em uma interpretação da Bíblia. Há cristãos sinceros que defendem que Deus determinou que X pessoas serão salvas e Y pessoas serão condenadas ao inferno. Há cristãos sinceros que acreditam que a salvação depende exclusivamente de uma decisão pessoal. Houve cristãos sinceros que acreditavam que obrigar alguém a se converter é um ato de amor - hoje, ninguém mais defenderia isto (pelo menos não em público). Há cristãos sinceros que acreditam que Deus está matando soldados no Iraque para punir quem tolera os gays, há cristãos sinceros que são homossexuais. Como saber qual destas posturas é a correta? O que significa esse "fator fé"?
segunda-feira, 14 de dezembro de 2009
Nota Rápida: Natal Sem Fome
Saiu hoje no Globo: a campanha Natal Sem Fome dos Sonhos, da ONG Ação da Cidadania Contra a Fome, a Miséria e Pela Vida, arrecadou até o momento apenas 54% do total alcançado em 2008. O objetivo da campanha é obter livros e brinquedos para crianças pobres - os livros integrarão Espaços de Leitura, carrinhos que circulam por comunidades carentes para estimular a formação de leitores.
Para ajudar, é só procurar um dos postos de coleta ou fazer um depósito na conta da Ação da Cidadania (Banco do Brasil, Agência 1211-4, Conta Corrente 500537-X). Mas atenção: faltam apenas 2 dias para o encerramento da campanha, e a entrega das "Cestas dos Sonhos"deve acontecer no próximo sábado, dia 19/12.
domingo, 8 de novembro de 2009
Estou lendo Missão Transformadora, de David J. Bosch (3. edição, Ed. Sinodal, 2009), para a disciplina Fundamentos da Missão. Destaco aqui alguns trechos do capítulo 5, Mudanças de paradigma na missiologia, que me fizeram pensar...
De fato, sempre houve (e há!) cristãos que consideram que suas compreensões da fé são as únicas autênticas. E, geralmente, todos apelam para a Bíblia para justificar essas compreensões. Se aceitamos a visão de Bosch (que é também a opinião de muitos teólogos) de que os próprios livros bíblicos não são registros, mas interpretações da revelação, dá para entender porque grupos tão diferentes quanto calvinistas e arminianos ou carismáticos e "tradicionais" conseguem justificar-se biblicamente. A Bíblia não é homogênea, ela contém diferentes visões de mundo, de Deus, da igreja e da fé.
É claro que sempre houve cristãos (e teólogos!) que achavam que sua compreensão da fé era "objetivamente" exata e, deveras, a única interpretação autêntica do cristianismo. Tal atitude, no entanto, baseia-se numa perigosa ilusão. Nossos pontos de vista constituem sempre meras interpretações do que consideramos ser a revelação divina, não a revelação divina em si (e essas interpretações são profundamente configuradas por nossas autocompreensões). Sustentei, nos capítulos precedentes, que nem mesmo os livros bíblicos que examinamos são, como tais, registros da revelação divina; eles constituem interpretações dessa revelação. [...] Ninguém recebe o evangelho de maneira passiva; cada qual, naturalmente, reinterpreta-o. [p. 228, grifo do autor]
Até aqui, tudo bem - o autor mantém sua coerência. Vejamos o próximo trecho.
Acho que aqui as coisas começam a se enrolar. Se aceitamos que "diferentes interpretações teológicas (...) refletem contextos, perspectivas e vieses distintos", que critério podemos usar para determinar que posições são válidas? Gosto da metáfora dos mapas, mas, neste caso, temos que admitir que nenhum de nós tem acesso ao território. Se só tenho em mãos os mapas, que critérios posso usar para dizer qual deles é adequado? No máximo, eu posso dizer que um mapa é incoerente porque usa duas escalas ao mesmo tempo, por exemplo. Mas, retiradas estas inconsistências técnicas, como determinar qual mapa representa melhor o território?
Em vez de ver minha própria interpretação como absolutamente correta e todas as demais, por definição, como errôneas, reconheço que diferentes interpretações teológicas, incluindo a minha, refletem contextos, perspectivas e vieses distintos. Isso não significa, todavia, que eu considere todas as posições teológicas igualmente válidas ou que aquilo em que as pessoas crêem não tem importância. Pelo contrário. Farei o possível para compartilhar minha compreensão de fé com outros, enquanto lhes concedo o direito de fazer o mesmo. Entendo que minha abordagem teológica é um 'mapa', e que um mapa jamais constitui o 'território' em si (...). Embora eu creia que meu mapa seja o melhor, aceito que haja outros e que, pelo menos em teoria, um desses mapas possa ser melhor que o meu, visto que só tenho acesso a um conhecimento parcial (cf. 1Co 13.12). [p. 234]
No parágrafo seguinte, a meu ver, Bosch se mete num beco-sem-saída:
Para a pessoa cristã, isto significa que qualquer mudança de paradigma só pode ocorrer com base no evangelho e por causa do evangelho, porém jamais contra ele (...). Ao contrário das ciências naturais, a teologia se relaciona não só com o presente e o futuro, mas também com o passado, a tradição, o testemunho primordial de Deus aos seres humanos (...). Não há dúvida de que a teologia sempre precisa ser relevante e contextual (...), contudo nunca se pode buscar isso a expensas da revelação de Deus na história de Israel e através dela e, principalmente, no evento de Jesus Cristo (...). Os cristãos levam a sério a prioridade epistemológica de seu texto clássico, as Escrituras. [p. 234]
Admito que não entendo exatamente o que quer dizer "prioridade epistemológica". Mas, a julgar pelo contexto, dá para ver que Bosch tenta reestabelecer a Bíblia como referencial para julgar a validade de posições teológicas. A revelação seria o território, e a ela devemos comparar nossos mapas. E aí a porca torce o rabo: já de início nós admitimos que não temos acesso direto a essa revelação. Na página 228, ele afirma que "na mais antiga tradição de Jesus, os ditos de Jesus já eram afirmações sobre Jesus" (grifos do autor). Como pode, agora, defender que a teologia não pode prescindir da revelação de Deus no evento de Jesus Cristo?
Verdade seja dita: Bosch percebe o que está fazendo e tenta se consertar no parágrafo seguinte.
Sei que, com a afirmação acima, dificilmente solucionei qualquer problema. As Escrituras vêm a nós em forma de palavras humanas, que já são "contextuais" (no sentido de terem sido redigidas para contextos históricos muito específicos) e, ademais, suscetíveis de interpretações distintas. Mas, ao fazer essa afirmação, estou sugerindo um "ponto de orientação" que todas as pessoas cristãs compartilham (ou deveriam compartilhar) e a partir do qual o diálogo entre elas se viabiliza. Nenhum indivíduo ou grupo possui aqui um monopólio. Assim, a igreja cristã deveria funcionar como uma "comunidade hermenêutica internacional" (...) em que cristãos (e teólogos) de diferentes contextos questionam, reciprocamente, seus vieses culturais, sociais e ideológicos. [p. 234]
Ok: a Bíblia pode servir como critério para avaliação das formulações de fé cristãs. Claro que, se ela mesma permite intepretações distintas e válidas, o mesmo valerá para as interpretações contemporâneas da fé: diferentes teologias e doutrinas poderão conviver e dialogar entre si. Tudo muito bom, tudo muito bem... Mas e quanto às pessoas e aos grupos fora dos nossos "arraiais"? As interpretações judaicas/ateístas/agnósticas/budistas/islâmicas/espíritas/xintoístas (etc.) são automaticamente menos válidas que as nossas? Com base em que poderíamos afirmar isso? Enfatizar o "evento-Cristo" não soluciona a questão: se os evangelistas interpretam e apresentam Jesus de diferentes maneiras igualmente válidas, e as próprias igrejas cristãs fazem o mesmo, como negar a validade das interpretações que judeus, islâmicos, espíritas, budistas (etc) fazem de Jesus?
Como se trata de um livro sobre missiologia, estou curiosa para ver como será tratada a questão da relação entre o cristianismo e outras religiões/cosmovisões... Para mim, porém, o apelo às "Escrituras" ou à tradição fala cada vez menos. Não posso mais defender a superioridade do cristianismo sobre outras religiões (ou sobre a "não religião", por falar nisso). E, no momento, não me sinto capaz de aderir incondicionalmente a qualquer doutrina cristã...
sábado, 7 de novembro de 2009
Supercômicos
"Praise the Lord! Batman and Robin!"
