sexta-feira, 23 de abril de 2010

Primeiras Palavras

Hoje, 23 de abril, é o Dia Mundial do Livro e dos Direitos Autorais. Para comemorar, fiz uma lista das minhas cinco frases de abertura inesquecíveis. Não são necessariamente meus livros favoritos, mas são os que me deixaram de boca aberta já na primeira página.

1. Orgulho e Preconceito / Jane Austen (1813)


É verdade universalmente reconhecida que um homem solteiro em posse de boa fortuna deve estar necessitado de esposa.


Ok, hoje em dia isso não é mais tão verdadeiro assim :-) Mas a frase dá o tom das preocupações da Sra. Bennett, mãe da protagonista (Elizabeth Bennett, uma das minhas personagens femininas favoritas) e de outras quatro filhas, cuja maior preocupação é arrumar bons casamentos para elas. É por causa da insistência dela que as irmãs Bennett acabam cruzando o caminho do Sr. Bingley e do orgulhoso (e, os meninos que me desculpem, maravilhoso) Sr. Darcy. Aliás, eu adoraria saber o que os caras pensam de Orgulho e Preconceito... Jane Austen é leitura só de meninas?


2. Neuromancer / William Gibson (1984)


O céu sobre o porto tinha a cor de uma televisão sintonizada num canal fora do ar.


Neuromancer (leia o primeiro capítulo aqui) é um clássico da ficção científica, especificamente da literatura ciberpunk. Nele, Gibson criou a palavra ciberespaço, hoje nossa velha conhecida. Esta primeira frase ajuda a colocar o leitor no clima do futuro distópico e super-tecnológico retratado no livro: até o céu é eletrônico...


3. A Metamorfose / Franz Kafka (1915)


Numa manhã, ao despertar de sonhos inquietantes, Gregor Samsa deu por si na cama transformado num gigantesco inseto.

A Metamorfose é a história de um homem que, do nada, acorda transformado num inseto monstruoso. O conto nunca deixa claro que tipo de inseto seria, nem o que teria levado a essa transformação. Desde a primeira frase, nos limitamos a acompanhar as desventuras de Gregor Samsa e de sua família adaptando-se a esta estranha condição. É Kafka: não espere um final feliz...


4. Anna Karenina / Liev Tolstói (1877)

Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira.

Quando li Anna Karenina, eu já conhecia o final trágico da protagonista, revelado em A Insustentável Leveza do Ser (de Milan Kundera). Mas isto não atrapalhou nem um pouco a leitura. A frase não deixa dúvida: as famílias apresentadas em Anna Karenina são infelizes, "cada uma à sua maneira". A começar pela própria Anna: aristocrata, casada, com um filho pequeno, ela se apaixona por um homem mais novo e cai em desgraça na sociedade russa. É um daqueles clássicos que fazem por merecer o título.


5. Cem Anos de Solidão / Gabriel García Márquez (1967)

Muitos anos depois, diante do pelotão de fuzilamento, o coronel Aureliano Buendía haveria de recordar aquela tarde remota em que seu pai o levou para conhecer o gelo.

Esta talvez tenha sido a primeira citação literária que eu decorei. Eu devia ter uns 12, 13 anos quando li Cem Anos de Solidão pela primeira vez, e a forma como o García Márquez junta tanta informação numa única frase me fascinou de cara. Como aquele menino virou coronel? O que ele fez para ir parar, "muitos anos depois", diante de um pelotão de fuzilamento? O livro mal começara e eu já estava completamente imersa na história.


E vocês? Alguma frase inesquecível que gostariam de compartilhar?

sábado, 10 de abril de 2010

Ajuda para o Rio de Janeiro (e boas-vindas para alguém especial)

As chuvas que caíram sobre o Rio de Janeiro (ou melhor, o descaso e a omissão dos governantes atuais e passados) deixaram mais de duzentos mortos e cerca de 15 mil desabrigados. O jornal O Globo divulgou lista com locais que estão recolhendo doações na capital, em Niterói (cidade que concentra mais da metade dos mortos), em São Gonçalo e em outras cidades. Além das doações em dinheiro, alguns dos principais itens solicitados são água, alimentos não-perecíveis, materiais de limpeza e de higiene pessoal, roupas, cobertores, entre outros. Escolha uma instituição em que você confia, e mãos à obra! Aliás, quem puder e quiser colaborar com mais do que donativos pode procurar a Cruz Vermelha, que está aceitando voluntários para trabalho imediato.

A chuva que começou na segunda à noite foi mesmo impressionante. Fiquei mais de três horas dentro de um ônibus indo da Lapa para a Tijuca, sendo que passei metade desse tempo parada. Não cheguei à faculdade, preferi descer, andar até a praça Afonso Pena e pegar o metrô para Botafogo. Tive sorte. Uma das minhas melhores amigas, grávida de 9 meses, ficou completamente ilhada no Recreio na terça feira. Um colega de turma, morador da Barra, saiu de casa na segunda às 5 da tarde para ir à faculdade e só foi chegar em casa às 5 da manhã de terça (veja aqui o relato dele, e um vídeo com o rio formado numa das principais ruas da Tijuca). O coordenador acadêmico levou quase 12 horas para ir da Tijuca a Mesquita. E a casa dos pais de um dos meus professores, em Niterói, foi parcialmente soterrada (felizmente todos passam bem).

No meio do caos, as desculpas de sempre. Dizer que a meteorologia não previu a chuva é bobagem: a previsão era de chuva forte desde domingo. Só que previsão do tempo não é ciência exata: até onde eu sei (fiz curso técnico de meteorologia - longa história - mas nunca exerci) não há forma de dizer exatamente quantos milímetros de água vão cair em determinada chuva. Cabe aos governantes terem um plano de emergências, que seja colocado em prática sempre que chuvas fortes se insinuarem - ainda mais em época de maré alta, como foi agora. No mais, não custa lembrar: nas próximas eleições, pense bem antes de escolher seus candidatos...

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Enquanto eu escrevia este post, chegou a notícia: nasceu a Marina, filha do Tiago e da Luciana, uma das minhas mais antigas amigas (a mesma que ficou ilhada em casa por conta das chuvas). Bem-vinda, Marina!

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Librarians Rock! (corrigida)

Quando você cresce, há duas instituições que o afetam especialmente: a Igreja, que pertence a Deus, e a biblioteca, que pertence a você.

A frase é de Keith Richards, guitarrista dos Rolling Stones, que revela em sua autobiografia (prestes a ser lançada lá fora) o sonho secreto de ser bibliotecário. Quem diria, enquanto eu estava aqui sonhando em tocar guitarra como Keith Richards*, ele estava lá sonhando em aprender a usar a Classificação Decimal de Dewey!



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* Ok, eu não sonhava em tocar guitarra como Keith Richards. Meu sonho musical secreto é ser uma daquelas negras lindas com um vozeirão, fazendo backing vocal numa banda de blues/jazz num clube enfumaçado de New Jersey [Errata: New Orleans! Isso que dá insistir em postar quando se está cabeceando de sono]... Como as moças que acompanham Buddy Guy em Feels Like Rain Mp3 (clique para ouvir).

segunda-feira, 29 de março de 2010

Nota Rápida: Coisas fofas

A verdadeira Turma do Minduim (no original, The Real Peanuts - clique para ver a camiseta):


E uma aula de história da arte em vídeo: 70 Million, da banda franco-americana Hold Your Horses:

70 Million by Hold Your Horses ! from L'Ogre on Vimeo.



E por hoje é só, p-p-p-pessoal!

domingo, 28 de março de 2010

Banana: o pesadelo criacionista

Neste vídeo, de 2006, os tele-evangelistas Ray Comfort e Kirk Cameron apresentam a teoria de que bananas são o pesadelo dos ateus:



O vídeo causou uma pequena sensação na internet - até Richard Dawkins se referiu a Comfort como banana-man durante uma palestra. Mas, se o objetivo era convencer algum ateu a se arrepender dos seus maus caminhos, Comfort e Cameron falharam. Não bastasse o humor involuntário do vídeo (em que Comfort mostra com gestos como a banana "se encaixa perfeitamente" em sua mão e em sua boca), os argumentos utilizados não resistem a um exame mínimo de sua consistência.

Vamos aceitar, por agora, a ideia de que um Criador desenhou a banana com a intenção de que torná-la perfeita para o consumo humano. Ora, se isso é verdade, por que ele não fez o mesmo com outras frutas, como o coco e o abacaxi? Ou por que as azeitonas são amargas (já se perguntou por que as azeitonas vêm imersas num líquido salgado? É que sem isso você não conseguiria comê-las.)? Ou seja: o argumento de que a banana seria prova da existência de Deus é um exemplo de falácia indutiva: formou-se uma regra geral (A banana é desenhada para os seres humanos, portanto existe um Deus Criador) com base numa amostra que não representa o todo. Na mesma linha de pensamento, Widson Reis (do blog Dragão de Garagem) propôs o argumento do pequi: se a banana testemunha que existe um Criador, os espinhos do pequi dão testemunho de que esse Criador tem senso de humor - negro.

Mas, será que poderíamos mesmo considerar a banana como evidência a favor da ideia de que o Universo foi criado por Deus? A resposta é não. As bananas selvagens têm sementes grandes e duras e um formato que lembra mais uma batata. As bananeiras "domesticadas" não são capazes de se reproduzir sozinhas: elas são o resultado de mutações e da interferência humana. Você pode ver mais sobre isto neste artigo do Skpecticwiki (em inglês) ou nos vídeos de Nick Gisburne, do site Smoking Gun, e do programa de rádio Atheist Experience (este e este). A conclusão: as bananas que a gente compra no mercado são uma criação humana - ou, se você preferir, um aperfeiçoamento humano sobre a criação divina.

Uma das mais conhecidas leis da internet, a Lei de Poe, sustenta que, "sem um emoticon ou outra clara exibição de humor, é impossível criar uma paródia fundamentalista sem que outras pessoas a tomem como verdade". Isto acontece porque muitas vezes os argumentos fundamentalistas beiram o ridículo, e este vídeo é um exemplo claro disto. Ray Comfort joga para a plateia: apresenta um punhado de argumentos supostamente lógicos com o intuito de provar o que os crentes já sabem, sem esconder um certo desprezo pelos não crentes incapazes de perceber o óbvio. Num "pedido de desculpas" publicado em 2009 - que serve de chamariz para um desafio a Richard Dawkins - Comfort alega que não sabia que a banana tinha sido domesticada pelo homem (e acrescenta mais uma pérola à sua coleção, insinuando que o homem usou a inteligência dada por Deus para fazer com que os cachorros coubessem nos carros). Como esperar que cientistas levem a sério quem nem se dá ao trabalho de tentar fundamentar suas ideias em fatos? Como esperar que qualquer pessoa com um mínimo de senso comum leve a sério quem despreza sua inteligência?

E a pergunta que me martela a cabeça: se o Cristianismo ainda é relevante para a sociedade ocidental contemporânea, e se a doutrina de um Deus Criador é essencial ao Cristianismo, será que não é possível defender Cristianismo e Criacionismo sem cair no ridículo?

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