domingo, 28 de março de 2010

Banana: o pesadelo criacionista

Neste vídeo, de 2006, os tele-evangelistas Ray Comfort e Kirk Cameron apresentam a teoria de que bananas são o pesadelo dos ateus:



O vídeo causou uma pequena sensação na internet - até Richard Dawkins se referiu a Comfort como banana-man durante uma palestra. Mas, se o objetivo era convencer algum ateu a se arrepender dos seus maus caminhos, Comfort e Cameron falharam. Não bastasse o humor involuntário do vídeo (em que Comfort mostra com gestos como a banana "se encaixa perfeitamente" em sua mão e em sua boca), os argumentos utilizados não resistem a um exame mínimo de sua consistência.

Vamos aceitar, por agora, a ideia de que um Criador desenhou a banana com a intenção de que torná-la perfeita para o consumo humano. Ora, se isso é verdade, por que ele não fez o mesmo com outras frutas, como o coco e o abacaxi? Ou por que as azeitonas são amargas (já se perguntou por que as azeitonas vêm imersas num líquido salgado? É que sem isso você não conseguiria comê-las.)? Ou seja: o argumento de que a banana seria prova da existência de Deus é um exemplo de falácia indutiva: formou-se uma regra geral (A banana é desenhada para os seres humanos, portanto existe um Deus Criador) com base numa amostra que não representa o todo. Na mesma linha de pensamento, Widson Reis (do blog Dragão de Garagem) propôs o argumento do pequi: se a banana testemunha que existe um Criador, os espinhos do pequi dão testemunho de que esse Criador tem senso de humor - negro.

Mas, será que poderíamos mesmo considerar a banana como evidência a favor da ideia de que o Universo foi criado por Deus? A resposta é não. As bananas selvagens têm sementes grandes e duras e um formato que lembra mais uma batata. As bananeiras "domesticadas" não são capazes de se reproduzir sozinhas: elas são o resultado de mutações e da interferência humana. Você pode ver mais sobre isto neste artigo do Skpecticwiki (em inglês) ou nos vídeos de Nick Gisburne, do site Smoking Gun, e do programa de rádio Atheist Experience (este e este). A conclusão: as bananas que a gente compra no mercado são uma criação humana - ou, se você preferir, um aperfeiçoamento humano sobre a criação divina.

Uma das mais conhecidas leis da internet, a Lei de Poe, sustenta que, "sem um emoticon ou outra clara exibição de humor, é impossível criar uma paródia fundamentalista sem que outras pessoas a tomem como verdade". Isto acontece porque muitas vezes os argumentos fundamentalistas beiram o ridículo, e este vídeo é um exemplo claro disto. Ray Comfort joga para a plateia: apresenta um punhado de argumentos supostamente lógicos com o intuito de provar o que os crentes já sabem, sem esconder um certo desprezo pelos não crentes incapazes de perceber o óbvio. Num "pedido de desculpas" publicado em 2009 - que serve de chamariz para um desafio a Richard Dawkins - Comfort alega que não sabia que a banana tinha sido domesticada pelo homem (e acrescenta mais uma pérola à sua coleção, insinuando que o homem usou a inteligência dada por Deus para fazer com que os cachorros coubessem nos carros). Como esperar que cientistas levem a sério quem nem se dá ao trabalho de tentar fundamentar suas ideias em fatos? Como esperar que qualquer pessoa com um mínimo de senso comum leve a sério quem despreza sua inteligência?

E a pergunta que me martela a cabeça: se o Cristianismo ainda é relevante para a sociedade ocidental contemporânea, e se a doutrina de um Deus Criador é essencial ao Cristianismo, será que não é possível defender Cristianismo e Criacionismo sem cair no ridículo?

2 comentários:

Roberto disse...

Se por "Criacionismo" você quer dizer "Criacionismo de Terra Jovem", então eu diria que não é possível defendê-lo sem querer ser ridicularizado. Outras formas de Criacionismo (Evolução Teísta, por exemplo) são mais facilmente defensáveis, mas ainda assim repletos de problemas de ordem mais teológica do que científica. Minha impressão é que é mais útil ver os relatos da Criação, em Gênesis, a partir de uma perspectiva simbólico-alegórica, do que tentar passar ambos como fato ou ciência.

Harlyson Lopes Vieira disse...

Por favor...diga que não foi sério. Diga que ele estava brincando. Diga que ele estava só de zoação com a cara daqueles que acreditam mesmo em tudo aquilo.

Não é possível que já estejamos assim...

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